É uma pergunta que ouço muito no consultório: “Doutora, o celular à noite atrapalha o crescimento?”. A resposta curta é: não existe prova de que a tela, por si só, diminua a altura. Mas ela atrapalha o sono. E o sono é um dos pilares do crescimento. Então vale, sim, prestar atenção.
Como a tela atrapalha o sono
Nosso corpo tem um relógio interno. Quando escurece, o cérebro começa a liberar a melatonina, o hormônio que avisa que está na hora de dormir. A luz das telas, principalmente a luz azulada, chega aos olhos como se ainda fosse dia. O cérebro atrasa a melatonina, e o sono demora a vir.
E não é só a luz. Vídeos, jogos e redes sociais deixam o cérebro ligado e animado. Cada vídeo puxa o próximo. A criança perde a noção do tempo e dorme mais tarde. Quando o celular fica no quarto, as notificações ainda podem acordá-la durante a noite.
- A luz da tela atrasa a liberação da melatonina.
- O conteúdo estimula e deixa o cérebro em alerta.
- O tempo na tela empurra a hora de dormir para mais tarde.
- Notificações e barulhos interrompem o sono.
E o crescimento nisso tudo?
O hormônio do crescimento é liberado em vários momentos do dia, mas uma parte importante sai durante o sono profundo, nas primeiras horas da noite. Quando a criança dorme tarde, dorme pouco ou acorda muitas vezes, esse sono profundo fica prejudicado.
Uma noite mal dormida não muda nada. O problema é o hábito de meses e anos. Além do sono, o tempo excessivo de tela costuma vir junto com menos atividade física e mais beliscos, e isso também influencia a saúde e o peso.
Vale lembrar que a altura depende muito da genética da família, da alimentação e da saúde geral. Dormir bem não faz ninguém crescer além do seu potencial. Mas ajuda a criança a chegar nele.
Não é a tela que encolhe a criança. É a noite de sono que a tela rouba.
Quanto tempo de tela por idade
A Sociedade Brasileira de Pediatria sugere estes limites para o tempo de tela fora das atividades da escola:
- Menores de 2 anos: evitar telas.
- De 2 a 5 anos: até 1 hora por dia, com a companhia de um adulto.
- De 6 a 10 anos: de 1 a 2 horas por dia, com supervisão.
- De 11 a 18 anos: de 2 a 3 horas por dia, sem virar a noite jogando ou nas redes.
A regra fácil para a casa
Se for para escolher uma regra só, fique com esta: telas desligadas pelo menos 1 hora antes de dormir, e celular fora do quarto à noite. A SBP sugere de 1 a 2 horas sem telas antes do sono. Comece com 1 hora e vá aumentando.
E o modo noturno do celular?
Filtros de luz azul e o modo noturno diminuem um pouco a luz azulada, mas não resolvem o problema. O conteúdo continua estimulando e o tempo continua passando. Eles podem ajudar, mas não substituem o desligar.
E com os adolescentes?
Na adolescência o relógio do corpo muda: o sono naturalmente vem mais tarde. Somado ao celular, isso vira madrugada. Proibir costuma gerar briga. Funciona melhor explicar o porquê, combinar juntos o horário e o lugar do celular à noite, e rever o combinado de tempos em tempos.
Mostre que a regra vale para todos, e que o objetivo não é castigo, é cuidado. Adolescentes que dormem melhor costumam ter mais disposição, melhor humor e melhor rendimento nos estudos e nos esportes.
Sinais de que o sono não vai bem
- Dificuldade para acordar de manhã, todos os dias.
- Sono, cansaço ou irritação durante as aulas.
- Dormir muito mais no fim de semana para compensar.
- Queda no rendimento escolar ou dificuldade de concentração.
Quando procurar a pediatra
Converse com a pediatra se, mesmo com uma boa rotina, a criança tiver dificuldade para dormir, acordar muitas vezes, roncar com pausas na respiração ou estiver sempre cansada. Procure também a endocrinopediatra se perceber que seu filho está crescendo menos que os colegas ou menos de 4 cm por ano depois dos 4 anos. Leve as medidas anotadas: elas ajudam muito na avaliação.
Evite dar remédios ou suplementos para dormir por conta própria, inclusive melatonina. Qualquer uso deve ser avaliado pela médica.
